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22 July 2015

O Comércio Ilegal do Hormônio do Sono no Brasil

 

 

 

 

Em 22/07/2015 o Site Motherboard,publicou a matéria "O Comércio Ilegal do Hormônio do Sono no Brasil". Citando o IPOM-Instituto de Pesquisa e Orientação da Mente.

Brenno* é programador. Em 2013, ele virava a noite por causa dos seus dois empregos remotos. Dormia com o nascer do sol entre livros de linguagem de programação, computadores recém-desligados e smartphone a tira colo. Ele sabia que as luzes das telas desregulavam seu sono. Quando tentou dormir durante a noite, era tarde demais. Só voltou a dormir quando passou a tomar um produto cuja venda é ilegal no Brasil: a melatonina, o hormônio que ajusta o relógio biológico em função da luz.

"É um hormônio natural, né", me disse Brenno numa conversa por telefone. Ele comprou as cápsulas de melatonina em uma das farmácias online encontradas pelo Google. As lojas vendem um pote por preços que vão de dez a sessenta reais sem o frete. Brenno usou a opção de pronta-entrega na sua compra e, em duas semanas, recebeu a caixa. "Quando comecei a tomar o medicamento, pensei: não durmo assim faz tempo", contou. "Ele dava uma certa calma, uma sonolência."

O programador usou melatonina durante quase três semanas. Foi tempo suficiente para que ele arranjasse outro problema: sono fora de hora. Brenno tomava quantas pilulas achasse necessário, na hora que julgasse eficiente. Segundo ele, não eram raras as vezes em que acordava com olhos pesados. "Um dia desses tomei melatonina às 3h da manhã e quando acordei estava com muito sono", disse. "Também passei a me atrasar para compromissos."

A leseira que Brenno compara ao efeito de um suco de maracujá é tida como torpor pelo estudante de direito Eduardo*. Em meados de 2014, o universitário resolveu tomar pílulas de melatonina. Após as aulas da tarde, ele ia noite adentro no meio de livros e telas do computador e do smartphone. "Tenho dificuldade de me afastar desses aparelhos à noite", disse. Ao contrário de Brenno, ele era reticente na dose. "Às vezes eu quebrava o comprimido em dois ou quatro pedaços", disse. O remédio vinha da mesma fonte: as lojas que se disfarçam de farmácias online.

As transações realizadas por esses sites não são permitidas no Brasil de acordo com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). "O comércio da melatonina pela internet ou em estabelecimentos é proibido porque o produto não tem registro", afirmou o porta-voz do órgão ao Motherboard. "O consumo é permitido, mas a comercialização no Brasil, não." A importação do medicamento, ainda segundo a agência, é autorizada pela internet somente para uso próprio sob prescrição de um profissional médico.

Nem Brenno nem Eduardo receberam orientações médicas sobre como e por que usar melatonina. Motivados pelos distúrbios do sono, eles compraram e usaram a substância por conta própria graças à legislação truncada e à oferta disponível numa simples busca. Embora não haja dados sobre o uso do hormônio do sono no Brasil, espanta imaginar que ela seja facilmente acessível num país onde 69% da população reclama da qualidade do sono segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa e Orientação da Mente (IPOM).

Estudioso do hormônio há mais de vinte anos, o professor de medicina da Universidade de São Paulo (USP), José Cipolla Neto, afirma que a medicação desenfrada de melatonina é preocupante. "Esse medicamento deve ser tratado como uma reposição hormonal administrada controladamente desde que o indivíduo tenha sinais e sintomas que tornem necessária essa reposição", me disse. "É importante que ela entre no arsenal terapêutico médico, mas com propriedade."

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) não defende com todas as letras a liberação de medicamentos com melatonina no Brasil, mas também não esconde os benefícios da substância. Em um levantamento divulgado em abril, o grupo elenca vantagens do hormônio no corpo humano que vão da sabida regulação do sono ao controle de gordura nos tecidos. Uma lista de medicamentos análogos à substância finaliza o relatório.

A Anvisa se esquiva quanto à legalização do comércio da substância no país. Segundo o órgão, nenhuma empresa solicitou o registro de um medicamento com melatonina. Por não ter os critérios de segurança e eficácia avaliados, a substância tem seu comércio impedido no país.

A epidemia da luz azul

Hoje Brenno e Eduardo raramente tomam as pílulas para dormir. O programador não reclama mais do sono e o estudante de direito diz que o medicamento não o ajudou a repousar melhor. Mas não é preciso ter tomado melatonina para saber os distúrbios que as telas de nossos eletrônicos podem causar.

Podemos dizer que somos todos vítimas da luz azul. Esse comprimento de onda é onipresente na vida urbana. Está por todos os lados, nos eletrônicos e nos espaços públicos, e inibe nossa produção natural de melatonina. "A fotoexibição noturna e a alteração na produção de melatonina são praticamente uma epidemia que tem se acentuado nos últimos tempos", me disse o doutor Cipolla.

"A melatonina é produzida pela glândula pineal", falou. "Ela tem várias funções, como todo hormônio humano, e sinaliza duas coisas: se é dia ou noite, pela sua ausência ou presença, ou qual a estação do ano a depender da quantidade produzida." Ainda segundo Cipolla, a melatonina é resultante de milhões de anos de evolução. A sua produção segue a demanda imposta pela luz natural. Ao entrarmos em contato com outras luzes artificiais, sobretudo a azul, alteramos nossos ritmos biológicos.

"Qualquer luz no ambiente inibe a produção de melatonina, principalmente a luz azul: ela indica que o dia está amanhecendo", explicou o doutor Cipolla. Essa cor vem em uma frequência de onda emitida em maior escala por lâmpadas de LED ou lâmpadas fluorescentes compactas devido a sua composição química. Nossos aparelhos preferidos, como smartphones e e-readers, se encontram nesse grupo. "Mais que a iluminação interior, as telas são poderosas bloqueadoras da síntese de melatonina", sentenciou Cipolla.

Um estudo divulgado em 2011 apontava para o efeito desse tipo de luz na produção de melatonina pelo cérebro humano. Realizada em parceria pelas universidades suíças de Basel e Lièges e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), a pesquisa identificou que o índice de melatonina em um grupo exposto a uma lâmpada comum era em média duas vezes maior que a quantidade da substância encontrada no mesmo grupo exposto a uma lâmpada fria, isto é, com maior presença da luz azul.

 

Um dos resultados do estudo das universidades suíças.

O estudo demonstrou também que as pessoas apresentavam maior nível de atenção quando estavam sob efeito do tom azulado. Comparadas ao momento em que estavam sob efeito de lâmpadas comuns, essas pessoas apontaram menor sensação de sonolência e tempo de resposta mais rápido em testes simples. "A seleção das lâmpadas fluorescentes comercialmente disponíveis com diferentes temperaturas de cor impacta significativamente a fisiologia circadiana e a performance cognitiva", sentencia a pesquisa. Em essência: as luzes azuis nos deixam mais ligadões.

O doutor Cipolla afirma que a desregulação do nosso relógio biológico tem consequências além do sono. "Ela atinge o metabolismo, mexe com o sistema cardiovascular e isso tudo leva a uma síndrome muito séria da redução da expectativa de vida", explicou. "A cultura humana ainda não trouxe uma resposta pra questão da iluminação e do trabalho noturno e talvez isso seja um limite: a espécie humana é uma espécie de atividade diurna e ponto."

Para regular um sono atribulado pelas luzes, a dica do doutor Cipolla é uma só: "use a noite para repouso". Segundo ele, reduzir a atividade e as luzes noturnas são passos que vêm antes mesmo de pensar em usar qualquer medicamento. "A primeira coisa para regular o sono não é tomar melatonina", disse. "Tem de acabar com essa iluminação noturna, principalmente em smartphones, computadores etc."

Outra dica interessante do médico é o aplicativo f.lux. O programa diminui as matizes de luz com maior presença do azul em função do pôr do sol onde o computador está localizado. "Você reduz o problema, mas não o elimina porque é preciso obedecer ao padrão natural", finalizou o médico. Talvez seja mesmo a hora de nos desconectarmos um pouco.